Em meio ao agravamento das tensões geopolíticas no Oriente Médio e aos impactos provocados por conflitos internacionais sobre economias globais, cadeias de suprimentos e mercados estratégicos, especialistas do setor de gestão de riscos defenderam a necessidade de ampliar a inteligência na gestão de riscos, fortalecer a governança e acelerar o desenvolvimento de soluções mais conectadas às transformações do cenário global.
O debate, que ocorreu nesta quarta-feira, 20, último dia do Encontro de Resseguro, promovido pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e pela Federação Nacional das Empresas de Resseguro (Fenaber), discutiu os desafios impostos pelas mudanças geopolíticas, climáticas, regulatórias e tecnológicas.
Para o Global Head of Insurance and Risk Manager da Vale, Rafael Amadiu, o atual cenário internacional exige que gestores de risco atuem de forma cada vez mais estratégica e antecipatória. Segundo ele, além das discussões regulatórias envolvendo o novo marco legal do seguro e mudanças recentes na legislação de transportes, os conflitos internacionais também passaram a pressionar o mercado segurador, especialmente nas coberturas relacionadas à guerra.
“O papel do gestor de risco é antecipar movimentos do mercado, traduzir a realidade do setor para dentro das companhias e ampliar o entendimento sobre os mecanismos de cobertura. Muitas vezes existe uma percepção equivocada de que a cobertura de guerra deve permanecer inalterada justamente quando o conflito se intensifica, mas o seguro responde ao cenário de risco existente”, afirmou.
Amadiu destacou ainda que existe preocupação de resseguradores internacionais sobre os impactos das mudanças regulatórias brasileiras e defendeu maior trabalho de comunicação e educação de mercado para reduzir desinformações sobre o funcionamento do sistema segurador nacional.
O painel foi moderado por Luiz Otávio Artilheiro, presidente da Associação Brasileira de Gerência de Riscos (ABGR), que ressaltou a importância da aproximação entre entidades, seguradoras, resseguradoras e gestores de risco diante de um ambiente cada vez mais dinâmico e interdependente.
Segundo Artilheiro, o avanço de novas tecnologias, da inteligência aplicada à gestão de risco e o desenvolvimento de soluções mais sofisticadas exigem uma atuação conjunta entre todos os agentes do mercado.
Cogestão de riscos
A gerente de riscos da Braskem, Jamila Hernandes Marino, explica que a relação entre empresas e seguradoras vem deixando de ser apenas transacional para se transformar em um modelo de cogestão de riscos. De acordo com ela, a combinação entre transição climática, volatilidade energética, mudanças regulatórias e riscos tecnológicos tornou insuficiente a análise baseada apenas em dados históricos.
“Hoje os riscos são mais complexos, dinâmicos e interdependentes. Não existe mais espaço para uma visão isolada do risco. O segurador deixa de ser apenas um protetor financeiro e passa a atuar como viabilizador dos projetos estratégicos das companhias”, detalha.
Jamila destacou que projetos ligados à transição energética e mudanças na matriz produtiva exigem acompanhamento constante de seguradoras e resseguradoras desde a fase de estruturação, principalmente em setores industriais intensivos e expostos a transformações operacionais.
Na avaliação da CEO para América Latina da Aon, Paula Ferreira, os riscos deixaram de ser analisados de forma isolada e passaram a exigir visão integrada e multidisciplinar. Ela destacou que mudanças climáticas, instabilidade geopolítica e avanço tecnológico vêm acelerando a necessidade de modelos preditivos mais sofisticados e do uso intensivo de dados para antecipar cenários futuros.
Retrato do mercado
Segundo Paula, um levantamento realizado pela companhia com empresas em diversos países apontou que quase 40% das companhias perderam recursos financeiros relacionados a eventos climáticos, enquanto na América Latina apenas 17% utilizam modelos analíticos para tomada de decisão.
A executiva também alertou para os desafios relacionados à expansão de data centers na América Latina e à necessidade de planejamento de longo prazo diante da exposição crescente a eventos climáticos extremos.
Já o presidente de Resseguros para América Latina e Caribe da Swiss Re, Santiago Arechaga, destacou que o avanço do mercado depende do fortalecimento de ferramentas de análise de dados, modelos preditivos e do alinhamento entre os agentes do setor.
Para ele, o Brasil apresenta elevado nível de sofisticação em gestão de riscos e demonstra disposição para inovação, apesar dos desafios relacionados à necessidade de ampliação da proteção e evolução regulatória. “O capital acompanha o conhecimento. Quanto maior a capacidade de compreender riscos futuros e desenvolver ferramentas modernas de análise, maior será a possibilidade de expansão e desenvolvimento do mercado”, disse.
Fonte: Notícias do Seguro