Executivos do mercado de seguros e resseguros defenderam maior disciplina técnica, avanço na modelagem de riscos climáticos e ampliação da cobertura securitária no Brasil diante de um cenário global marcado por inflação persistente, tensões geopolíticas e eventos climáticos cada vez mais severos. Os temas foram debatidos durante painel sobre ambiente de negócios e perspectivas do mercado durante o Encontro de Resseguros do Rio de Janeiro, organizado pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e a Federação Nacional das Empresas de Resseguros (Fenaber).

A economista-chefe do BNP Paribas Cardif, Fernanda Guardado, afirma que o mundo pós-pandemia se mostrou mais resiliente do que o esperado, apesar da sucessão de choques globais desde 2020, como a Covid-19, rupturas nas cadeias de suprimentos, a guerra da Ucrânia e os conflitos recentes no Oriente Médio.

Segundo ela, o principal efeito desses eventos tem sido a manutenção de pressões inflacionárias em diversas economias, levando a um cenário estrutural de juros mais elevados no mundo.

“No período anterior à pandemia, vivíamos o que era chamado de ‘The Great Moderation’, com inflação e juros muito baixos. Depois da Covid, o mundo desenvolvido reaprendeu o que é inflação”, ressalta.

No caso brasileiro, Fernanda destaca que o país surpreendeu positivamente entre 2021 e 2025, crescendo acima do potencial, com desemprego em mínimas históricas e ganhos reais de renda. Por outro lado, alerta que esse crescimento sustentado também gerou inflação resistente, especialmente no setor de serviços.

Ela ressalta ainda que fatores externos, como o fechamento do Estreito de Ormuz, podem pressionar ainda mais a inflação global ao afetar cadeias de suprimentos ligadas ao petróleo, fertilizantes e microchips.

“Hoje projetamos uma Selic em 13,5% no fim do ano. As chances de o Banco Central interromper o ciclo de queda dos juros estão aumentando”, disse.

Nova lei do seguro exige adaptação do mercado

Para o CEO da Austral RE, Bruno Freire, o setor como um todo enfrenta um momento de muita mudança tecnológica. Ninguém sabe exatamente onde essa revolução tecnológica vai parar, mas certamente muita coisa vai mudar, trazendo mais competitividade, mas também muitos desafios.

Especificamente no mercado de resseguro, Bruno vê uma transição de um mercado mais duro para entrar em um momento de mercado mais soft, o que traz o desafio de mantermos a rentabilidade do negócio. “Ainda que às vezes seja vantajoso para o comprador, para a sustentabilidade da operação é fundamental que todos consigam fazer uma subscrição sustentável a longo prazo”, afirma.

Falando especificamente da nova legislação, Bruno afirma que qualquer mudança legislativa é sempre um desafio. “Acredito que a lei teve uma intenção e um objetivo muito positivos: tentar ser uma lei, principalmente, pró-consumidor e pró-segurado. Essa sempre foi a ideia, e ela é bem-vinda. Como o Alessandro Octaviani (Superintendente da Susep) mencionou, o intuito é dar mais credibilidade ao mercado, mostrando que o seguro está aqui para pagar os sinistros”, avalia.

O CEO da Austral RE acredita, contudo, que para o segurador de grandes riscos, para o corporativo e para o ressegurador, existe um desafio adicional. A lei não separou exatamente o que é o risco corporativo, o grande risco e o resseguro daquilo que é o seguro massificado. Isso traz alguns desafios, inclusive nas relações comerciais.

“Seguro e resseguro são uma promessa de pagamento. Paga-se um prêmio por uma eventualidade futura e confia-se que a outra parte vai honrar o compromisso. É um cenário de boa-fé. Os seguradores e resseguradores vivem de credibilidade e reputação. Isso vale para todas as partes envolvidas: seja o grande segurado comprando proteção, a seguradora comprando resseguro, ou o ressegurador comprando retrocessão. Trabalhamos com base na credibilidade. Caso contrário, em algum momento, teremos dificuldades para comprar proteção ou sermos aceitos como parceiros comerciais”, afirma Bruno.

Excesso de capital e pressão sobre preços

Representante do mercado internacional de resseguros, Marc Lipman, presidente da Lloyd’s Americas, afirma que o setor vive atualmente um cenário de excesso de capital global após anos de forte rentabilidade.

Segundo ele, o capital disponível vem sendo direcionado diretamente para subscrição, aumentando a competição e pressionando a rentabilidade técnica.

“Estamos começando a questionar a adequação dos preços. A pressão sobre a disciplina de subscrição chegou mais rápido do que imaginávamos”, afirmou.

O executivo também destaca que as mudanças climáticas e as tensões geopolíticas têm ampliado a complexidade dos riscos, especialmente pela imprevisibilidade dos eventos climáticos extremos e pelos impactos inflacionários das rupturas nas cadeias globais.

Apesar do cenário desafiador, ele avalia que a América Latina — e especialmente o Brasil — aparece como um dos mercados mais promissores para expansão do setor.

“O Brasil é extremamente interessante. Tem uma matriz energética diversificada, projetos de infraestrutura e oportunidades em energia renovável que exigirão suporte do mercado segurador por décadas”, disse.

Mudanças climáticas alteram estruturalmente o perfil de risco

Outro ponto central do debate foi o aumento da frequência e da severidade de eventos climáticos no Brasil.

Para Karsten Steinmetz, CEO da Munich Re do Brasil, o país vive uma mudança estrutural no perfil de risco, com perdas mais frequentes, eventos mais severos e menos previsibilidade, exigindo revisão de modelos, maior prevenção e ampliação da cobertura securitária.

Ele ressalta que é preciso ir além da cobertura e incluir temas como prevenção, ampliação da cobertura e diversificação. Esses são elementos cada vez mais importantes neste mundo imprevisível.

Karsten também destaca que ninguém pode resolver o problema da mudança climática sozinho. “Temos que colaborar de verdade, todos juntos: seguradoras, resseguradoras, a sociedade e a Susep. Todos temos um papel, e somente se realmente trabalharmos juntos poderemos enfrentar esses problemas. Outros eventos, como as queimadas ou os riscos cibernéticos, também poderão ser resolvidos se trabalharmos juntos”, sentencia.

O CEO da Munich Re do Brasil ressalta ainda que as experiências internacionais mostram que as mudanças climáticas estão deslocando a distribuição de probabilidades para fora do intervalo histórico. “Poucos meses antes das enchentes do Rio Grande do Sul, tivemos o furacão Otis no México, um país que está muito bem acostumado a lidar com essas intempéries. Foi um cenário muito diferente, uma tempestade tropical que, em apenas 12 horas, se tornou um furacão de categoria 5 e rompeu todos os modelos que tínhamos”, lembra Karsten.

Por fim, ele ressalta a importância de se trabalhar para reduzir a lacuna de proteção (protection gap). “Temos aqui uma falha na sociedade e, provavelmente, na nossa indústria também, no sentido de resolver o problema e oferecer soluções para que os clientes, as empresas e as famílias sejam mais resilientes neste tempo instável”, finaliza.

Fonte: Notícias do Seguro