O risco climático deixou de ser um tema restrito à agenda reputacional ou de sustentabilidade e passou a ocupar posição estrutural na formação de preços, na concessão de crédito e na gestão de riscos corporativos. A avaliação é da Federação Nacional das Empresas de Resseguros (Fenaber), que defende o reconhecimento do clima como variável econômica e financeira nas decisões de empresas, bancos, seguradoras e investidores.
Segundo a entidade, a intensificação e a maior frequência de eventos extremos já produzem efeitos mensuráveis sobre perdas econômicas, sinistralidade, capital regulatório e custo de transferência de risco. Nesse contexto, o resseguro assume papel estratégico ao funcionar como amortecedor de choques severos, absorvendo perdas extraordinárias e contribuindo para a estabilidade das seguradoras e do sistema financeiro.
No cenário internacional, grandes resseguradoras vêm tratando o clima como risco financeiro propriamente dito. Destaca-se que a cobertura de eventos climáticos extremos é instrumento de mitigação de perdas econômicas e de preservação de fluxos de caixa de empresas e países. Corretoras globais de resseguro também apontam que a maior severidade de chuvas, vendavais e tornados já pressiona preços, capital e estruturas contratuais, exigindo ajustes técnicos permanentes.
No Brasil, o debate ganha relevância adicional diante do chamado “protection gap” – diferença entre perdas econômicas totais e valores efetivamente segurados. De acordo com dados divulgados pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), em diversos desastres recentes menos de 10% dos prejuízos econômicos estavam cobertos por seguros, o que amplia a exposição fiscal de governos e a vulnerabilidade financeira de empresas.
Para a presidente da Fenaber, Rafaela Barreda, a ampliação da cobertura securitária e o fortalecimento do mercado de resseguros são elementos centrais para reduzir essa lacuna. “O resseguro contribui para diluir riscos extremos, reduzir volatilidade de resultados e manter a oferta de coberturas em um ambiente de maior incerteza climática”, afirma a entidade.
Estudos do Banco Central e de entidades de pesquisa indicam que o risco climático já impacta variáveis como crédito, inadimplência, valor de ativos e precificação de seguros. Relatórios de grupos seguradores internacionais também apontam que parcela significativa dos ativos do setor é sensível a riscos relacionados ao clima, reforçando o potencial efeito sistêmico do tema.
Na avaliação da Federação, incorporar o risco climático aos modelos econômicos e financeiros é condição para ampliar previsibilidade, fortalecer a resiliência produtiva e apoiar a transição para uma economia de menor intensidade de carbono. A entidade defende o aprofundamento do diálogo técnico entre seguradoras, resseguradoras, corretores, reguladores e formuladores de políticas públicas sobre infraestruturas mais resilientes, avaliação, gerenciamento e mitigação de riscos, soluções de transferência de riscos, ajustes contratuais e requisitos de capital diante do novo cenário.
Ao tratar o clima como fator estruturante das decisões econômicas, e não apenas como item de reporte ESG, o mercado de resseguros reforça seu papel como pilar de estabilidade financeira do mercado segurador e de proteção em caso de grandes exposições.
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