O avanço da infraestrutura brasileira voltou a depender de um arranjo fundamental, ainda pouco discutido no debate público: a capacidade de transferir e diluir risco em operações de longo prazo. Nesse contexto, o resseguro aparece como peça complementar na expansão da capacidade do mercado segurador, indispensável para viabilizar grandes obras de energia, saneamento, transporte e logística.
Esse tema ganha destaque à medida que a agenda de concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs) demanda contratos prolongados, altos volumes de capital e proteção contra riscos como engenharia, atrasos de obra, acidentes, eventos climáticos e inadimplência contratual. A Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB) projeta investimentos de cerca de R$ 300 bilhões em 2026, com avanço de 35,7% em saneamento e de 12,7% em transporte e logística, os segmentos mais dependentes de garantias técnicas e financeiras.
No mercado segurador, dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) mostram que as cessões ao resseguro alcançaram cerca de R$ 29,2 bilhões em 2025, um aumento em relação aos R$ 26,1 bilhões do ano anterior, com avanço das resseguradoras locais, que contribuíram com R$ 16,0 bilhões no ano. O movimento confirma a ampliação da transferência de risco no Brasil e a importância do resseguro para sustentar projetos, proteger balanços e dar previsibilidade ao mercado.
“A infraestrutura brasileira depende de previsibilidade regulatória, segurança jurídica e estrutura robusta de transferência de riscos. Sem resseguro, a conta de grandes projetos simplesmente não fecha”, constata Rafaela Barreda, presidente da Federação Nacional das Empresas de Resseguros (Fenaber).
A relevância do resseguro também se conecta ao ambiente econômico. Em 2026, o País ainda convive com juros elevados e com rating soberano abaixo do grau de investimento nas principais agências, um quadro que encarece o financiamento e aumenta a exigência de mitigação de risco em projetos estruturantes. Nesse cenário, o resseguro deixa de ser apenas um instrumento técnico do setor e se consolida como uma engrenagem econômica para destravar investimento privado.