*Por Rafaela Barreda

Quando os números do resseguro crescem, é comum surgir uma interpretação quase automática: a de que os riscos aumentaram. Em parte, isso é verdade. Mas, olhando de dentro do mercado, essa leitura já não explica sozinha o que vem acontecendo no Brasil.

O crescimento das cessões observado nos últimos anos revela também outra mudança, menos evidente e, na minha avaliação, mais importante. O mercado segurador brasileiro passou a incorporar o resseguro de forma mais estratégica. Não apenas para ampliar capacidade diante de grandes riscos, mas como parte da gestão das carteiras, do desenvolvimento de produtos, da gestão de capital mais eficiente e do planejamento de longo prazo das seguradoras.

Essa evolução acompanha a transformação da própria economia. Projetos de infraestrutura ganharam escala, o agronegócio ampliou sua participação internacional, novos modelos de negócio surgiram e a exposição a riscos climáticos, tecnológicos e operacionais tornou-se mais complexa. Não porque esses riscos sejam inéditos, mas porque passaram a ocorrer com maior frequência, maior impacto financeiro e maior interdependência.

Nesse ambiente, é natural que as seguradoras recorram mais ao resseguro. A novidade é que essa decisão deixou de responder apenas a uma necessidade pontual de capacidade. Ela passou a integrar uma estratégia permanente de gestão de riscos.

Os dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) ajudam a ilustrar esse movimento. Entre janeiro e maio deste ano, aproximadamente R$ 12,2 bilhões em prêmios emitidos pelas seguradoras brasileiras foram cedidos ao resseguro. Entre 2021 e 2025, esse volume passou de R$ 17,3 bilhões para R$ 29,2 bilhões, um crescimento de 68,8%.

Os números impressionam, mas fazem mais sentido quando observados em conjunto com a expansão do próprio mercado segurador. O resseguro não cresce sozinho, ele acompanha um setor que amplia sua atuação na economia, desenvolve novas coberturas e busca responder a riscos que hoje exigem soluções mais sofisticadas do que aquelas disponíveis há dez ou quinze anos, e essa talvez seja a principal mudança do mercado brasileiro.

Durante muito tempo, o resseguro era percebido principalmente como um mecanismo de proteção para grandes riscos industriais ou operações de maior porte. Essa função continua existindo, naturalmente. Mas ela já não resume a realidade. O resseguro passou a contribuir de forma mais ampla para o equilíbrio das carteiras das seguradoras, para a gestão do capital e para a ampliação da capacidade de subscrição em diferentes segmentos.

Na prática, isso significa que as seguradoras conseguem acompanhar uma economia que também se tornou mais diversa e mais exigente. O debate sobre infraestrutura, transição energética, segurança cibernética ou adaptação às mudanças climáticas, por exemplo, inevitavelmente passa pela capacidade do mercado segurador de oferecer proteção compatível com esses desafios. E essa capacidade depende de uma estrutura de resseguro sólida, diversificada e integrada ao mercado internacional.

Outro aspecto que merece atenção é o ambiente concorrencial construído nas últimas décadas. Hoje, o Brasil conta com 15 resseguradoras locais, 25 admitidas e 92 eventuais. Esse conjunto amplia as alternativas disponíveis para as seguradoras brasileiras e fortalece a capacidade do mercado de responder a operações de diferentes perfis e complexidades.

Costumo dizer que o resseguro raramente aparece aos olhos da sociedade. E talvez essa seja uma característica natural de uma atividade cuja função é dar sustentação ao mercado segurador. Quando essa estrutura funciona bem, o foco permanece nos investimentos que avançam, nas coberturas que chegam ao mercado e na proteção oferecida a empresas e pessoas – não na engrenagem que torna tudo isso possível.

Por isso, vejo o crescimento das cessões sob uma perspectiva diferente. Mais do que um indicador da evolução do resseguro, ele mostra um mercado segurador que amadureceu na forma de administrar riscos. Em uma economia que continuará convivendo com eventos climáticos mais frequentes, cadeias produtivas mais interdependentes e transformações tecnológicas aceleradas, essa capacidade fará cada vez mais diferença para o desenvolvimento do país.

Rafaela Barreda é presidente da Federação Nacional das Empresas de Resseguro (Fenaber)